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domingo, 22 de março de 2009

Todo o ser é belo - A beleza do ser e os filósofos da época moderna

Os filósofos que não situam a verdade e a bondade no real negam também a beleza objetiva das coisas. Kant afirma que o julgamento do gosto não é um julgamento de conhecimento porque ele está estabelecido somente em fatores puramente objetivos. Hoje, esta redução da beleza à uma avaliação subjetiva é muito respondida. Assim, G. Santayana confessa não entender porque outras pessoas deveriam achar belo o que se estima belo por si mesmo. Segundo ele isso não se compreende por si, porque a beleza não existe no mundo exterior e é senão um valor que nós concordamos nas coisas. A beleza é a objetivação de certo prazer.

Segundo Jean Paul Sartre, a consideração estética é um sonho provocado e a passagem no real é um autentico sonho. As coisas nunca são belas. A beleza é um valor que não se pode aplicar, senão, no que se imaginou, ela comporta a ansiedade do mundo na sua estrutura essencial.

Estas posições assinalam uma oposição entre o mundo dos fatos e o domínio dos valores. Como escreve A. Maurer, a opinião segundo a qual a beleza é subjetiva e as coisas são espantosas é uma herança da filosofia moderna que, desde Kant, proclama que o fundamento de um julgamento sobre a beleza não pode ser senão a sensação de prazer que nos provam quando somos convencidos por uma coisa. Ora, segundo ele uma tal sensação é puramente subjetiva. Nossa experiência das coisas, que nós consideramos belas, esta, portanto, em contradição com estas teorias. Nenhuma delas explica porque uma bela coisa é percebida como objetivamente bela: um por do sol, uma cadeia de montanhas, animais, arvores flores são percebidas como belas em si mesmas. A doutrina do belo de Santo Tomás afirma a característica objetiva da beleza, mas, ela não nega que na percepção do belo, a emoção e o prazer tenham com efeito um lugar, como indicamos mais acima, quando falávamos da ratio subiectiva pulchri.

Neste contexto é oportuno lembrar que a metafísica estuda as coisas que não são feitas pelo homem e não considera os objetos da arte humana enquanto tais. A avaliação da beleza destes produtos pode ser difícil, se o artista quis exprimir certa idéia que não tem senão uma relação afastada com a representação. Os elementos constitutivos da definição da beleza podem não estar todos presentes numa obra de arte. A integridade ou harmonia das partes, por exemplo, é muitas vezes, sacrificada por fazer destacar-se certa idéia e criar uma impressão particular como, por exemplo, o aspecto repulsivo de certos produtos da tecnologia, a extrema pobreza ou o lado cômico ou miserável da vida humana.


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167

domingo, 15 de março de 2009

Todo o ser é belo - Todo ser é bom

Não obstante, outras faculdades cognitivas percebem também a beleza. Nós sabemos por experiência, que nós não chamamos belos os objetos dos sentidos de atração, de tocar e do gosto. Somente os sentidos que tem um conhecimento mais perfeito fazem a experiência do belo, a saber, a visão e a audição, na medida em que eles estão a serviço da razão. Isto se explica pelo fato que a experiência da beleza é a percepção da claridade de uma forma, da proporção e da harmonia das partes de um objeto. Ora, em última análise, só o intelecto pode conhecer esta claridade e esta ordem ou proporção. Certamente, nossos sentidos da visão e da audição conhecem as formas e os sons, mas sem a ajuda do intelecto, nós não poderíamos conhecer a beleza enquanto tal, isto é, o fato de que os objetos percebidos pelos sentidos estão adaptados e estão em harmonia com o desejo tão profundo do intelecto da claridade e da ordem. Nenhum animal tem uma experiência da beleza no sentido estrito do termo, ainda que ele possua os elementos materiais necessários a experiência da beleza. Os sentidos inferiores consideram seus objetos menores como o que é separado do conhecimento a ele exteriormente, o que é diretamente ligada ao sujeito. É porque estes sentidos têm uma menor capacidade em perceber a claridade e a ordem. Sua colaboração com o intelecto é também menos direta que aquela da visão e da audição.

O belo se definiu como conhecimento que é uma fonte de prazer. Antes de tudo, o belo é uma coisa na qual o ato de conhecer e o desejo fundamental do intelecto encontram sua satisfação e alcançam seu repouso. O desejo que fala Santo Tomás é em primeiro lugar a tendência das faculdades cognitivas superiores por um conhecimento claro, mas o termo designa também na faculdade apetitiva por si mesma (ao mesmo tempo o apetite sensível e intelectual), que encontra sua plenitude se repousando num belo objeto.

A beleza tem uma relação com verdade: chama-se com efeito da verdade (splendor veri) porque ela se realiza pela claridade e pelo brilho, assim como pela harmonia das partes bem proporcionadas (ou pelas riquezas interiores da essência); é o que se chama a ratio obiectiva pulchri. No entanto, a beleza é ligada também ao bem porque a experiência que se tem dela preenche a vontade (o que se chama ratio sbiectiva pulcri). O belo e o bem são idênticos na coisa porque os dois são estabelecidos pela forma. O belo é uma espécie de bem. Isso não significa que o belo seria como uma espécie no interior de um gênero (como o tigre é uma espécie dos animais) e por conseqüência não teria a mesma extensão que o bem enquanto conceito transcendental. Santo Tomás confirma categoricamente que todas as criaturas são belas e que cada forma é, de um certo modo, radiosa e perfeita. Pela expressão species boni ele quer sem nenhuma duvida dizer, que o belo acrescenta alguma coisa ao bem, a saber, uma correspondência particular com o intelecto, que resulta da claridade e da ordem harmoniosa das partes, que é próprio dos seres. O belo está ligado a verdade porque está ordenada as faculdades cognitivas; ele está ligado ao bem porque satisfaz a vontade.

O belo é por conseqüência, esta propriedade dos seres que surgiu de uma associação da verdade e do bem. Isto explica porque Santo Tomás não o menciona como um transcendental especial. Sendo uma síntese da verdade e do bem ele é o objeto do conhecimento contemplativo do homem que esperará sua perfeição na beatitude na visão de Deus. O belo é admirado e amado por causa de sua forma, não é, em primeiro lugar, um bem que se deseja esperar. A vida contemplativa por si mesma é bela. A atividade da inteligência efetuada na claridade e na ordem é bela por excelência. As virtudes morais também são belas enquanto elas participam das ordens dos atos humanos na verdade ultima do homem, uma ordem que elas ajudam a assegurar. Tem esta proposta David Hume em que escreve: não há espetáculo mais belo que uma ação nobre e generosa.



ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 8 de março de 2009

Todo o ser é belo - Santo Tomás de Aquino e a beleza do ser

Tomás definiu a beleza da seguinte forma: É próprio ao bem de saciar nosso desejo quando o alcançamos, ainda que seja próprio do belo quando ele é conhecido. O belo acrescenta por conseqüência qualquer coisa ao bem, a saber, o fato de ser ordenado no conhecimento. Define-se, então, o bem como o que preenche nosso apetite, ainda que se defina o belo como o conhecimento que nos alegra. “o belo e o bem são a mesma coisa no sujeito, porque ambos estão estabelecidos sobre a mesma coisa: a forma; respeita-se o bem tanto quanto o belo. Mas, eles se diferem em seu conteúdo conceitual, porque o bem se refere propriamente ao apetite; ele está na prática pelo qual todas as coisas tendem. É porque o bem tem a natureza ultima, pois o apetite é a tendência para algo. O belo, por outro lado, está associado à faculdade do conhecimento, porque se diz que as coisas que nos agradam quando nós as vemos, são belas. O belo consiste, então, em uma justa proporção, porque nossos sentidos encontram no prazer nas coisas que são bem proporcionadas como no que lhe aparece. Porque nossos sentidos, tal como todas as faculdades cognitivas, é certo entendimento. É porque o conhecimento age por assimilação e que a semelhança é associada à forma em que o belo participa devidamente a o que nós chamamos de causa formal”

Neste texto Santo Tomás não se contenta em dar uma definição de beleza: a partir da beleza que nós conhecemos primeiro e que nos é mais acessível – a saber, aqueles objetos da visão e da audição – ele estabelece que qualquer coisa é belo e corresponde à uma ordem se produz uma satisfação que a experiência da beleza nos conduz. Em numerosas passagens Santo Tomás escreve que o projeto harmonioso das partes de uma coisa é essencial na beleza. Ele fala da “proporção necessária” da “proporcionalidade” (das partes entre elas) e da “harmonia das partes”, de sua “boa ordem”. Esta ordem pressupõe a integridade de uma coisa. Santo Tomás retoma muitas vezes as noções do brilho e da claridade, noções que, elas mesmas, são próprias a o que é belo. O ser que é belo se mostra ao homem em sua claridade racional.

A ordem e a claridade, que constituem a beleza, brotam da forma essencial das coisas belas. A forma é o fundamento ultimo de sua beleza. A forma é por si mesma bela. Ela é a mais alta participação na beleza e na claridade de Deus. “toda forma, graça na qual uma coisa tem o ser, é certa participação na claridade e na participação de Deus”. “A forma é alguma coisa de divino, elam possui a maior perfeição e é desejável. Há alguma coisa de divino na forma porque cada forma é uma participação, do ponto de vista da semelhança, no ser divino que é o ato puro: toda a coisa é realizada na medida onde ela possui a forma. A forma é o que há de mais perfeito porque o ato é a perfeição da potencia e seu bem; de lá vem que ela é também desejável, porque toda a coisa tende para a perfeição”. Tomás chama esta participação na perfeição de Deus uma particularização (particulatio): a forma, que nela mesma é ilimitada, é particularizada, delimitada e, de certa maneira, dividida em formas individuais. A forma é uma realidade luminosa que provém da claridade e da claridade primeira, isto é, de Deus.



ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 1 de março de 2009

Todo o ser é belo - O sentido da beleza na tradição cristã

Como mostram as citações acima, Plotino afirma a Beleza ontológica das coisas. Em vista da atenção que levava o fundador do neo-platonismo à beleza, não se surpreende mais em ver Santo Agostinho tratar da beleza em vários de seus textos. Ele sublinha que por ser belo, uma coisa deve ser uno, isto é, que ela deve parecer em sua forma ideal: “Toda a Beleza é uma”. As partes do que é belo estão ordenados uns aos outros e a sua fonte de unidade. Agostinho levanta também a questão de saber se as coisas são belas porque elas nos agradam ou se elas nos agradam porque elas são belas. Um outro problema: por que as coisas são belas? Pode ser porque suas partes parecem umas com as outras e são alinhadas harmoniosamente umas as outras a um acontecimento? Ao passo que Santo Agostinho responde a estas questões, ele nota que, apesar disso, as coisas não alcançam esta unidade à qual elas tendem; ele se vê, então, confrontado na questão de saber onde se encontra a unidade real. Tomando a teoria platônica da participação, ele sugere que não se pode retirar o conhecimento da unidade pura, que é a base de uma experiência do belo na percepção do corpo estendido no espaço. A Beleza é o brilho da unidade das coisas e a ordem de suas partes. Denys o Areopagita, do qual em seus escritos tiveram uma grande influencia sobre o Ocidente latino, segue a mesma linha de pensamento. No esplendor do seu ser, Deus é a Beleza por si mesmo; Ele criou o mundo a partir do amor de sua própria Beleza e as criaturas partilham mais ou menos de sua Beleza.

Estudando os doutores que imediatamente precederam Santo Tomás, nós vemos que Guillaume d’Auverne que o que é bom é igualmente belo; Jean de la Rochelle acrescenta por sua parte a beleza na tríade de Philippe Le Chancelier (unidade, verdade, e bondade). Num texto importante, Boaventura enumera quatro propriedades transcendentais do ser: a unidade, a verdade, a bondade e a beleza. Santo Alberto definiu a beleza como ser “o esplendor da forma substancial ou acidental sobre as partes materiais que são proporcionadas e delimitadas”. A essência da beleza reside na harmonia de certo numero de partes. Para Santo Alberto, esta proporção de partes constitui o elemento material da beleza, ao passo que o esplendor da beleza é o componente formal. Em seu Super dionysium de divinis nominibus ele atribiu três características essenciais da beleza: o esplendor da forma das partes bem proporcionadas; o despertar do desejo; a reunião de todas as coisas pela forma da qual o esplendor constitui a beleza (congregat omnia ex parte formae cuius resplendentia facit pulchrum).


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 22 de fevereiro de 2009

Todo o ser é belo - Os filósofos gregos sobre a bondade

A palavra grega kaloz (belo) significava na origem o fato de estar em boa saúde, forte, virtuoso e bonito em aparência. Para os gregos a beleza implicava ordem e simetria. Mais tarde, os pitagóricos puseram em relevo a importância da simetria; Demócrito nota que o que é bonito é necessário equilibrado. Conforme Platão, a Beleza é uma das idéias principais: as coisas belas que nós vemos não são a beleza por si - mesmas, mas elas participam dela. Prtindo da experiência que nós temos da beleza das coisas materiais, nós deveríamos nos elevar, pela beleza das ações morais e do conhecimento, até a Beleza em si. “Como isso será se alguém admite em ver a Beleza em si, na verdade de sua natureza, em sua pureza sem desordem? Alguém que ao invés de uma beleza infectada pela carne humana, pelas cores, por incontáveis artífices, poderia ver a Beleza em si, na unidade de sua essência?”. Platão faz do Belo o princípio mais alto na hierarquia do ser e o identifica como Bem. “Tudo o que é bom é belo”. Em sua doutrina do Belo, Platão exprime uma atitude fundamental dos gregos para os quais o desejo da beleza física, também como da beleza artística e o desejo da beleza dos atos virtuosos, era de uma importância decisiva na educação e na cultura.

Aristóteles associou a si o belo ao divino, isto é, o que é o mais perfeito. Ele descreve o belo como o que é agradável e o que é desejável em si. Assim, sua descrição engloba o que é bonito do ponto de vista estético assim como a beleza do agir moral. Ele cita como atributos da beleza: a ordem, a simetria e a delimitação, mas também o tamanho (uma coisa muito pequena não pode ser considerada bela).

No pensamento neo-platônico o belo ocupa um lugar central. Plotino escreve que o belo é principalmente ordenado no sentido da visão, mas que certo tipo de beleza está ordenado no sentido da audição. Procurando quais são os fatores que tomam as formas materiais tão refinadas e os sons mais suaves, ele faz notar que a causa disso não é tanto a simetria, senão uma participação no ideal da beleza. A cada vez que a alma encontra o que parece a esta forma ideal, um tremor e um reconhecimento a transita. O tratado conclui pelo exortação seguinte: toda pessoa que deseja ver Deus e a Beleza deve primeiro tornar-se ela mesma como Deus e a Beleza. “Assim, em sua viagem nos céus, a alma alcançará primeiro no principio inteligente e ela verá todas as belas idéias presente neste ser tão nobre e ela proclamará que isto é a Beleza e que os Ideais são da Beleza. Porque graças a sua ação que toda a beleza, em que ela seja, alcance a existência... o que se encontre acima e abaixo do Princípio inteligente é, para nós, a natureza do Bem que irradia o Belo pelo exterior. Se nós considerarmos, por conseqüência, o mundo dos objetos inteligíveis como sendo um, o belo vem em primeiro; se fizermos uma distinção aqui, então o mundo das Idéias e da Beleza do que pode ser conhecido intelectualmente, e o Bem que se encontra acima, é muitas vezes a fonte e o princípio da beleza. O primeiro Bem, e o primeiro Belo tem sua residência: o lugar onde se encontra a Beleza, está sempre acima”. A Beleza reside também no comportamento moral e na atividade intelectual. Ela não pode existir sem o Ser, passível que o ser não possa existir sem a Beleza. A cada vez que a Beleza abandona o Ser, este último perde alguma coisa de sua essência. O Ser é desejável porque ele é idêntico à Beleza; a Beleza é amada porque ela é o Ser. Afim de existir, o Ser deve, de uma maneira ou de outra, participar na Beleza.


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167