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domingo, 22 de março de 2009

Todo o ser é belo - A beleza do ser e os filósofos da época moderna

Os filósofos que não situam a verdade e a bondade no real negam também a beleza objetiva das coisas. Kant afirma que o julgamento do gosto não é um julgamento de conhecimento porque ele está estabelecido somente em fatores puramente objetivos. Hoje, esta redução da beleza à uma avaliação subjetiva é muito respondida. Assim, G. Santayana confessa não entender porque outras pessoas deveriam achar belo o que se estima belo por si mesmo. Segundo ele isso não se compreende por si, porque a beleza não existe no mundo exterior e é senão um valor que nós concordamos nas coisas. A beleza é a objetivação de certo prazer.

Segundo Jean Paul Sartre, a consideração estética é um sonho provocado e a passagem no real é um autentico sonho. As coisas nunca são belas. A beleza é um valor que não se pode aplicar, senão, no que se imaginou, ela comporta a ansiedade do mundo na sua estrutura essencial.

Estas posições assinalam uma oposição entre o mundo dos fatos e o domínio dos valores. Como escreve A. Maurer, a opinião segundo a qual a beleza é subjetiva e as coisas são espantosas é uma herança da filosofia moderna que, desde Kant, proclama que o fundamento de um julgamento sobre a beleza não pode ser senão a sensação de prazer que nos provam quando somos convencidos por uma coisa. Ora, segundo ele uma tal sensação é puramente subjetiva. Nossa experiência das coisas, que nós consideramos belas, esta, portanto, em contradição com estas teorias. Nenhuma delas explica porque uma bela coisa é percebida como objetivamente bela: um por do sol, uma cadeia de montanhas, animais, arvores flores são percebidas como belas em si mesmas. A doutrina do belo de Santo Tomás afirma a característica objetiva da beleza, mas, ela não nega que na percepção do belo, a emoção e o prazer tenham com efeito um lugar, como indicamos mais acima, quando falávamos da ratio subiectiva pulchri.

Neste contexto é oportuno lembrar que a metafísica estuda as coisas que não são feitas pelo homem e não considera os objetos da arte humana enquanto tais. A avaliação da beleza destes produtos pode ser difícil, se o artista quis exprimir certa idéia que não tem senão uma relação afastada com a representação. Os elementos constitutivos da definição da beleza podem não estar todos presentes numa obra de arte. A integridade ou harmonia das partes, por exemplo, é muitas vezes, sacrificada por fazer destacar-se certa idéia e criar uma impressão particular como, por exemplo, o aspecto repulsivo de certos produtos da tecnologia, a extrema pobreza ou o lado cômico ou miserável da vida humana.


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167

domingo, 15 de março de 2009

Todo o ser é belo - Todo ser é bom

Não obstante, outras faculdades cognitivas percebem também a beleza. Nós sabemos por experiência, que nós não chamamos belos os objetos dos sentidos de atração, de tocar e do gosto. Somente os sentidos que tem um conhecimento mais perfeito fazem a experiência do belo, a saber, a visão e a audição, na medida em que eles estão a serviço da razão. Isto se explica pelo fato que a experiência da beleza é a percepção da claridade de uma forma, da proporção e da harmonia das partes de um objeto. Ora, em última análise, só o intelecto pode conhecer esta claridade e esta ordem ou proporção. Certamente, nossos sentidos da visão e da audição conhecem as formas e os sons, mas sem a ajuda do intelecto, nós não poderíamos conhecer a beleza enquanto tal, isto é, o fato de que os objetos percebidos pelos sentidos estão adaptados e estão em harmonia com o desejo tão profundo do intelecto da claridade e da ordem. Nenhum animal tem uma experiência da beleza no sentido estrito do termo, ainda que ele possua os elementos materiais necessários a experiência da beleza. Os sentidos inferiores consideram seus objetos menores como o que é separado do conhecimento a ele exteriormente, o que é diretamente ligada ao sujeito. É porque estes sentidos têm uma menor capacidade em perceber a claridade e a ordem. Sua colaboração com o intelecto é também menos direta que aquela da visão e da audição.

O belo se definiu como conhecimento que é uma fonte de prazer. Antes de tudo, o belo é uma coisa na qual o ato de conhecer e o desejo fundamental do intelecto encontram sua satisfação e alcançam seu repouso. O desejo que fala Santo Tomás é em primeiro lugar a tendência das faculdades cognitivas superiores por um conhecimento claro, mas o termo designa também na faculdade apetitiva por si mesma (ao mesmo tempo o apetite sensível e intelectual), que encontra sua plenitude se repousando num belo objeto.

A beleza tem uma relação com verdade: chama-se com efeito da verdade (splendor veri) porque ela se realiza pela claridade e pelo brilho, assim como pela harmonia das partes bem proporcionadas (ou pelas riquezas interiores da essência); é o que se chama a ratio obiectiva pulchri. No entanto, a beleza é ligada também ao bem porque a experiência que se tem dela preenche a vontade (o que se chama ratio sbiectiva pulcri). O belo e o bem são idênticos na coisa porque os dois são estabelecidos pela forma. O belo é uma espécie de bem. Isso não significa que o belo seria como uma espécie no interior de um gênero (como o tigre é uma espécie dos animais) e por conseqüência não teria a mesma extensão que o bem enquanto conceito transcendental. Santo Tomás confirma categoricamente que todas as criaturas são belas e que cada forma é, de um certo modo, radiosa e perfeita. Pela expressão species boni ele quer sem nenhuma duvida dizer, que o belo acrescenta alguma coisa ao bem, a saber, uma correspondência particular com o intelecto, que resulta da claridade e da ordem harmoniosa das partes, que é próprio dos seres. O belo está ligado a verdade porque está ordenada as faculdades cognitivas; ele está ligado ao bem porque satisfaz a vontade.

O belo é por conseqüência, esta propriedade dos seres que surgiu de uma associação da verdade e do bem. Isto explica porque Santo Tomás não o menciona como um transcendental especial. Sendo uma síntese da verdade e do bem ele é o objeto do conhecimento contemplativo do homem que esperará sua perfeição na beatitude na visão de Deus. O belo é admirado e amado por causa de sua forma, não é, em primeiro lugar, um bem que se deseja esperar. A vida contemplativa por si mesma é bela. A atividade da inteligência efetuada na claridade e na ordem é bela por excelência. As virtudes morais também são belas enquanto elas participam das ordens dos atos humanos na verdade ultima do homem, uma ordem que elas ajudam a assegurar. Tem esta proposta David Hume em que escreve: não há espetáculo mais belo que uma ação nobre e generosa.



ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 8 de março de 2009

Todo o ser é belo - Santo Tomás de Aquino e a beleza do ser

Tomás definiu a beleza da seguinte forma: É próprio ao bem de saciar nosso desejo quando o alcançamos, ainda que seja próprio do belo quando ele é conhecido. O belo acrescenta por conseqüência qualquer coisa ao bem, a saber, o fato de ser ordenado no conhecimento. Define-se, então, o bem como o que preenche nosso apetite, ainda que se defina o belo como o conhecimento que nos alegra. “o belo e o bem são a mesma coisa no sujeito, porque ambos estão estabelecidos sobre a mesma coisa: a forma; respeita-se o bem tanto quanto o belo. Mas, eles se diferem em seu conteúdo conceitual, porque o bem se refere propriamente ao apetite; ele está na prática pelo qual todas as coisas tendem. É porque o bem tem a natureza ultima, pois o apetite é a tendência para algo. O belo, por outro lado, está associado à faculdade do conhecimento, porque se diz que as coisas que nos agradam quando nós as vemos, são belas. O belo consiste, então, em uma justa proporção, porque nossos sentidos encontram no prazer nas coisas que são bem proporcionadas como no que lhe aparece. Porque nossos sentidos, tal como todas as faculdades cognitivas, é certo entendimento. É porque o conhecimento age por assimilação e que a semelhança é associada à forma em que o belo participa devidamente a o que nós chamamos de causa formal”

Neste texto Santo Tomás não se contenta em dar uma definição de beleza: a partir da beleza que nós conhecemos primeiro e que nos é mais acessível – a saber, aqueles objetos da visão e da audição – ele estabelece que qualquer coisa é belo e corresponde à uma ordem se produz uma satisfação que a experiência da beleza nos conduz. Em numerosas passagens Santo Tomás escreve que o projeto harmonioso das partes de uma coisa é essencial na beleza. Ele fala da “proporção necessária” da “proporcionalidade” (das partes entre elas) e da “harmonia das partes”, de sua “boa ordem”. Esta ordem pressupõe a integridade de uma coisa. Santo Tomás retoma muitas vezes as noções do brilho e da claridade, noções que, elas mesmas, são próprias a o que é belo. O ser que é belo se mostra ao homem em sua claridade racional.

A ordem e a claridade, que constituem a beleza, brotam da forma essencial das coisas belas. A forma é o fundamento ultimo de sua beleza. A forma é por si mesma bela. Ela é a mais alta participação na beleza e na claridade de Deus. “toda forma, graça na qual uma coisa tem o ser, é certa participação na claridade e na participação de Deus”. “A forma é alguma coisa de divino, elam possui a maior perfeição e é desejável. Há alguma coisa de divino na forma porque cada forma é uma participação, do ponto de vista da semelhança, no ser divino que é o ato puro: toda a coisa é realizada na medida onde ela possui a forma. A forma é o que há de mais perfeito porque o ato é a perfeição da potencia e seu bem; de lá vem que ela é também desejável, porque toda a coisa tende para a perfeição”. Tomás chama esta participação na perfeição de Deus uma particularização (particulatio): a forma, que nela mesma é ilimitada, é particularizada, delimitada e, de certa maneira, dividida em formas individuais. A forma é uma realidade luminosa que provém da claridade e da claridade primeira, isto é, de Deus.



ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 1 de março de 2009

Todo o ser é belo - O sentido da beleza na tradição cristã

Como mostram as citações acima, Plotino afirma a Beleza ontológica das coisas. Em vista da atenção que levava o fundador do neo-platonismo à beleza, não se surpreende mais em ver Santo Agostinho tratar da beleza em vários de seus textos. Ele sublinha que por ser belo, uma coisa deve ser uno, isto é, que ela deve parecer em sua forma ideal: “Toda a Beleza é uma”. As partes do que é belo estão ordenados uns aos outros e a sua fonte de unidade. Agostinho levanta também a questão de saber se as coisas são belas porque elas nos agradam ou se elas nos agradam porque elas são belas. Um outro problema: por que as coisas são belas? Pode ser porque suas partes parecem umas com as outras e são alinhadas harmoniosamente umas as outras a um acontecimento? Ao passo que Santo Agostinho responde a estas questões, ele nota que, apesar disso, as coisas não alcançam esta unidade à qual elas tendem; ele se vê, então, confrontado na questão de saber onde se encontra a unidade real. Tomando a teoria platônica da participação, ele sugere que não se pode retirar o conhecimento da unidade pura, que é a base de uma experiência do belo na percepção do corpo estendido no espaço. A Beleza é o brilho da unidade das coisas e a ordem de suas partes. Denys o Areopagita, do qual em seus escritos tiveram uma grande influencia sobre o Ocidente latino, segue a mesma linha de pensamento. No esplendor do seu ser, Deus é a Beleza por si mesmo; Ele criou o mundo a partir do amor de sua própria Beleza e as criaturas partilham mais ou menos de sua Beleza.

Estudando os doutores que imediatamente precederam Santo Tomás, nós vemos que Guillaume d’Auverne que o que é bom é igualmente belo; Jean de la Rochelle acrescenta por sua parte a beleza na tríade de Philippe Le Chancelier (unidade, verdade, e bondade). Num texto importante, Boaventura enumera quatro propriedades transcendentais do ser: a unidade, a verdade, a bondade e a beleza. Santo Alberto definiu a beleza como ser “o esplendor da forma substancial ou acidental sobre as partes materiais que são proporcionadas e delimitadas”. A essência da beleza reside na harmonia de certo numero de partes. Para Santo Alberto, esta proporção de partes constitui o elemento material da beleza, ao passo que o esplendor da beleza é o componente formal. Em seu Super dionysium de divinis nominibus ele atribiu três características essenciais da beleza: o esplendor da forma das partes bem proporcionadas; o despertar do desejo; a reunião de todas as coisas pela forma da qual o esplendor constitui a beleza (congregat omnia ex parte formae cuius resplendentia facit pulchrum).


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 22 de fevereiro de 2009

Todo o ser é belo - Os filósofos gregos sobre a bondade

A palavra grega kaloz (belo) significava na origem o fato de estar em boa saúde, forte, virtuoso e bonito em aparência. Para os gregos a beleza implicava ordem e simetria. Mais tarde, os pitagóricos puseram em relevo a importância da simetria; Demócrito nota que o que é bonito é necessário equilibrado. Conforme Platão, a Beleza é uma das idéias principais: as coisas belas que nós vemos não são a beleza por si - mesmas, mas elas participam dela. Prtindo da experiência que nós temos da beleza das coisas materiais, nós deveríamos nos elevar, pela beleza das ações morais e do conhecimento, até a Beleza em si. “Como isso será se alguém admite em ver a Beleza em si, na verdade de sua natureza, em sua pureza sem desordem? Alguém que ao invés de uma beleza infectada pela carne humana, pelas cores, por incontáveis artífices, poderia ver a Beleza em si, na unidade de sua essência?”. Platão faz do Belo o princípio mais alto na hierarquia do ser e o identifica como Bem. “Tudo o que é bom é belo”. Em sua doutrina do Belo, Platão exprime uma atitude fundamental dos gregos para os quais o desejo da beleza física, também como da beleza artística e o desejo da beleza dos atos virtuosos, era de uma importância decisiva na educação e na cultura.

Aristóteles associou a si o belo ao divino, isto é, o que é o mais perfeito. Ele descreve o belo como o que é agradável e o que é desejável em si. Assim, sua descrição engloba o que é bonito do ponto de vista estético assim como a beleza do agir moral. Ele cita como atributos da beleza: a ordem, a simetria e a delimitação, mas também o tamanho (uma coisa muito pequena não pode ser considerada bela).

No pensamento neo-platônico o belo ocupa um lugar central. Plotino escreve que o belo é principalmente ordenado no sentido da visão, mas que certo tipo de beleza está ordenado no sentido da audição. Procurando quais são os fatores que tomam as formas materiais tão refinadas e os sons mais suaves, ele faz notar que a causa disso não é tanto a simetria, senão uma participação no ideal da beleza. A cada vez que a alma encontra o que parece a esta forma ideal, um tremor e um reconhecimento a transita. O tratado conclui pelo exortação seguinte: toda pessoa que deseja ver Deus e a Beleza deve primeiro tornar-se ela mesma como Deus e a Beleza. “Assim, em sua viagem nos céus, a alma alcançará primeiro no principio inteligente e ela verá todas as belas idéias presente neste ser tão nobre e ela proclamará que isto é a Beleza e que os Ideais são da Beleza. Porque graças a sua ação que toda a beleza, em que ela seja, alcance a existência... o que se encontre acima e abaixo do Princípio inteligente é, para nós, a natureza do Bem que irradia o Belo pelo exterior. Se nós considerarmos, por conseqüência, o mundo dos objetos inteligíveis como sendo um, o belo vem em primeiro; se fizermos uma distinção aqui, então o mundo das Idéias e da Beleza do que pode ser conhecido intelectualmente, e o Bem que se encontra acima, é muitas vezes a fonte e o princípio da beleza. O primeiro Bem, e o primeiro Belo tem sua residência: o lugar onde se encontra a Beleza, está sempre acima”. A Beleza reside também no comportamento moral e na atividade intelectual. Ela não pode existir sem o Ser, passível que o ser não possa existir sem a Beleza. A cada vez que a Beleza abandona o Ser, este último perde alguma coisa de sua essência. O Ser é desejável porque ele é idêntico à Beleza; a Beleza é amada porque ela é o Ser. Afim de existir, o Ser deve, de uma maneira ou de outra, participar na Beleza.


ELDERS, L.J., La metaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Vrin, 2008, pp, 159-167


domingo, 15 de fevereiro de 2009

O Espírito Santo em Santo Tomás

Três termos são necessários para dizer sobre o Espírito Santo: Espírito, Amor e Dom. São as características que apresenta a terceira pessoa da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo estão unidos e promovem uma comunhão entre si que se projeta na comunidade de vida em cada pessoa. Para cada pessoa da Trindade há um atributo específico, ou seja, Santo Tomás apresenta uma espécie de “qualidade” em que exerce as pessoas divinas. Tais atributos são chamados de essenciais: criação ao Pai, salvação ao Filho, e santificação e vivificação ao Espírito Santo. Os atributos são nomes em que são evidenciados para ressaltar o indizível. É o mistério da Trindade que paira sobre a humanidade. Porém, é pela Revelação que se evidencia a processão das pessoas divinas, ou seja, o Filho (salvador) procede do Pai (criador) e o Espírito (santificador) procede do Filho e do Pai. Existe uma união entre as pessoas divinas em que toda a humanidade é senão vestígio e imagem da Trindade. Com efeito, o Espírito participa da Criação, é o movimento dos seres (comunicação de Deus as coisas), movimento da vida. O Espírito sendo o movimento da vida é, senão, aquele que impulsiona todas as coisas. O Espírito participa desde a criação do mundo. O mundo como uma criatura de Deus tem uma participação (por analogia) na Trindade. Desta forma, Deus se comunica com as criaturas, tem uma relação entre elas. Deus não exclui as “coisas” criadas, mas, as ampara, as acolhe na benevolência divina. O Espírito Santo, para Santo Tomás é o “fio condutor” que une a humanidade a Deus. A santidade promovida pelo Espírito Santo é, senão, o motor que impulsiona o homem encontrar-se com Deus. A Verdade, de fato, é manifestada pela unção do Espírito no homem que o faz perceber nas coisas a presença de Deus. A Verdade divina é revelada pelo Espírito Santo. É pelo Espírito Santo que a humanidade é configurada a Deus. A via da bem-aventurança é aberta a toda a humanidade. O querigma foi transmitido por Cristo, resta ao homem a vontade e a diligencia em observar as obras de Deus e anunciar a Boa Nova de Cristo a todo o mundo. É o Espírito Santo que impele o homem a cumprir as vontades de Deus. Deus como o sumo bem transmite a sua bondade a todos os seres criados. Mas, como observar a bondade de Deus que se encontra no mundo? A resposta é o Espírito. O Espírito orienta para o bem, orienta para Deus. A vida em nada teria sentido se o Espírito não agisse no mundo. É pelo Espírito que o amor se torna vigente. As relações humanas se evidenciam numa reciprocidade, numa comunhão devido ao Espírito. O Amor move o homem, move o mundo, move todos os seres.Portanto, O Espírito é fonte de todo o ser sendo o amor que está na origem da criação. Ele é fonte de vida, movimento e santidade.

TORREL, J. P., Santo Tomás de Aquino. Mestre Espiritual. São Paulo: Loyola, 2008.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Metafísica e teologia

• Santo Tomas aproxima a metafísica da teologia, porém a teologia de Santo Tomas está inserida no contexto da Sacra Doctrina. O que seria a Sacra Doctrina? É a própria ação de ensinar e o que se ensina sobre Deus, Revelação, Trindade, Tradição e a pregação de Igreja e tem seu fundamento na Sagrada Escritura. A Sacra Doctrina tem seu desenvolvimento na linha especulativa: esforço da inteligência a fé; histórico positiva: progressos da exegese e patrologia e a linha mística: demonstração de piedades;
• A teologia é, antes de tudo, uma expressão de vida teologal em atividades em que as virtudes da fé, esperança e caridade são exercidas plenamente. Para isso requer a fé como condutor de uma boa vida cristã. Para Santo Tomas à Bíblia requer essa adesão vital de toda a pessoa à realidade divina que se manifesta em nós;
• A teologia e a fé exercem uma relação da qual o homem não pode dissociar Esta é a razão de ser de todo o homem. Sem a fé não teria justificação. A fé é a capacidade da qual o homem pode alcançar a realidade divina. O ato do cristão não termina na coisa em si, mas, somente, em Deus. São Tomé é o exemplo de cristão, que com sua fé, exerce o propósito em aproximar-se de Deus. É a partir o momento em que cai de joelhos aos pés do Ressuscitado que lhe mostra suas chagas, o apóstolo Tomé, o incrédulo, torna-se de imediato um bom teólogo;
• A fé é animada por desejo ardente que procede do Amor. É animada pelo desejo do bem prometido que impele a pessoa crer na verdade divina. Se a fé não se concebe sem o amor, é que ela não se dirige a uma verdade abstrata, mas a uma pessoa na qual Bem e Verdade se identificam. A Verdade primeira que é o objeto da fé é também o Bem supremo objeto de todos os desejos e de todo o agir do homem;
• Para Aristóteles as coisas concretas são evidentes ao homem e isso é chamado de “princípios”. Santo Tomas utiliza esses “princípios” e insere um termo chave de seu pensamento “verdade-conclusão” Um exemplo disso é a própria pessoa de Jesus em que é um “princípio”, mas, ao mesmo tempo é uma “verdade-conclusão” desta forma é fácil perceber o ser numa dimensão escatológica. O teólogo é conduzido a todo o processo de saber concreto que ao fim de sua busca é irresistivelmente conduzido para Aquele que é o fim último de sua vida de fé;
• Quando Santo Tomas explicita a realidade divina, este fala de Deus como sujeito da teologia. Deus é o Principio e o Fim, o Alfa e o Omega. Mas, para entendermos o significado do termo sujeito, temos que analisarmos o conceito de objeto e sujeito que fora empregado para entendermos o que foi empregado por Santo Tomas. Outrora a Santo Tomas, o sujeito era a realidade mental do homem e o objeto a realidade exterior em que o homem apreende com a razão. Santo Tomas inverte esta concepção. Deus é considerado o sujeito e o homem (a razão humana, o objeto) isso porque Deus jamais pode se reduzir a um objeto. Deus é o fim ultimo que o homem deve atingir. O teólogo jamais pode esquecer que o sujeito de seu saber, o fim que persegue, é o conhecimento do Deus vivo da história da salvação;
• Deus é o sujeito da teologia. Não é as coisas criadas das quais devemos recorrer, mas, a iniciativa de Deus em seu amor misericordioso. De modo algum a Igreja pode explicar-se a si mesma, deve-se voltar para Aquele que é a Cabeça, Cristo, e ele em sua humanidade é o enviado do Pai e da Trindade;
• Evidentemente que toda a ação de Deus na vida do homem requer uma adesão. Essa adesão é uma tendência para a participação na vida de Deus. Santo Tomas chama essa tendência do homem de habitus (hábito). O Dom divino inteiramente gratuito age no ser humano, aperfeiçoando a capacidade natural a altura de relacionar-se com Deus. É a graça divina que impera na pessoa humana para que cada um possa se dispor as vontades de Deus;
• Desta forma permite-nos perceber a teologia de duas formas: a teologia enquanto a razão animada pela fé, sendo, uma ciência piedosa, penetrada na caridade. A teologia não deve ser morta, pois isso seria anormal, mas, contemplativa e orante. Acrescenta-se aqui outra característica da teologia: exercício da oração. Por outro lado, a teologia tem sua dimensão escatológica. É a fé e a caridade que promovem a esperança. Todo o ser humano participa do conhecimento divino, pois o homem adere-se pela fé à verdade primeira;
• Assim, descreve-se uma teologia espiritualista em que o ser criado tende a aproximar-se do Divino. A espiritualidade é a realidade vivida por determinada pessoa em que a qualidade de vida é levada sob a moção do Espírito. O Espírito Santo age no homem e este se deixa conduzir as obras de caridade. Cristo é o exemplo perfeito em que encontra uma espiritualidade plena. A espiritualidade de fato nos torna mais humanos e aptos a perceber no outro a pessoa de Cristo. É por isso que na teologia não se pode dissociar a realidade concreta do “meta-físico”, isso porque o agir humano mesmo com sua realidade existencial contribui para um aproximar-se de Deus.

Referências

TORREL, J. P., Santo Tomás de Aquino. Mestre Espiritual. São Paulo: Loyola, 2008.

ELDERS, L. J. La Métaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1994.

domingo, 18 de janeiro de 2009

A origem e a utilização do termo metafísica.

A primeira utilização do termo metafísica foi atribuída a Andronicos de Rhodes que pôs em ordem e publicou os discursos de Aristóteles no primeiro século antes de Cristo. Ele teria dado o título a “escritos depois dos tratados da ciência natural” a certo número de textos dos quais o conteúdo varia muito. A palavra metafísica foi empregada a partir desta expressão;
• O próprio Aristóteles não utilizou o termo metafísica. Ele refere-se a ela como filosofia primeira;
• Santo Tomas rejeita a tese segunda a qual o real é inacessível e ensina a possibilidade de esperar e de conhecer o ser. SER HOMEM e a experiência individual do homem não são aspectos acidentais do ser. Isso porque o homem pode impor significações as coisas. Santo Tomas afirma que a metafísica não é um conhecimento subjetivo da realidade e que ela é independente das experiências que pertencem no mundo. Um tal conhecimento é possível graças a capacidade intelectual de abstrair o universo e o comum das coisas concretas;
• A este ponto é útil perceber que Santo Tomas faz notar várias tomadas que nosso conhecimento pode apreender através dos sentidos. Nosso intelecto percebe, portanto, os dados da experiência sensível, fazendo que haja uma interação entre a matéria e aquilo que é inacessível a mente humana;
• É preciso notar que a metafísica de Santo Tomas não estuda o que é dado objetivo. Mas o ser, que compreende o ser humano em sua medida tem seu alcance ao cosmos. É a realidade concreta do homem que se eleva a uma ordem mais superior;
• SCG III 16, 9 ad 2 “A base del verbo comentó no se construye un argumento que vaya de lo inferior a lo superior, diciendo, por ejemplo: esto ha comentado a ser blanco. Luego ha comentado a ser colorado. Y esto porque el comentar implica existir ahora y no antes. No es posible argüir así: esto antes no era blanco. Luego antes no era colorado. El existir escuetamente es superior al existir como hombre. Por lo que no es lógico hacer esta deducción: Cristo comentó a ser hombre. Luego comentó a existir”.
• O primeiro ponto a sublinhar é que segundo Santo Tomas a metafísica não trat unicamente do mundo imaterial e suprassensível que se situaria depois ou além dos objetos da percepção;
• Santo Tomas sublinha que a metafísica tem como sujeito o ser. Isso significa que a metafísica não se trata de uma categoria particular do ser mas estuda tudo o que existe. Desta forma, Santo Tomas corrige Aristóteles em que afirma que a filosofia primeira que é considerada separada da matéria;
• Santo Tomas nota que o intelecto deve assimilar o real e que isso se produz pelo intermédio de etapas sucessivas da abstração e separação. Neste estado uma forma de separação é posta em relação ao ser das coisas. O que é característica desse conceito é que o intelecto deve assimilar sucessivamente diferentes degraus do ser: de fato a hierarquia do ser é decisiva para a alcançarmos a metafísica;
• SCG I 85, 1 ad 2 ya que esto sería abstraerías de la materia inteligible común. Sin embargo, no es necesario referirlas a esta o a aquella sustancia. Esto equivaldría a abstraerías de la materia inteligible individual”.
• Na existência do ser imaterial nós temos a identificação do ser com a realidade material em que não é necessário reduzi-la. Isso significa que nós adquirimos uma nova compreensão do ser mais profunda e purificada. O ser deixa de ser uma característica puramente material, mas utiliza também considerações que vão além da matéria. Assim, a metafísica quer dizer o que é real sem considerar se o que é ral é material ou não. Este conceito metafísico pressupõe um conhecimento detalhado do ser apoiando até mesmo em considerações sobre a prova da imaterialidade da alma humana. Não obstante nosso primeiro conceito é ainda confuso e precede de outros conceitos;
• Santo Tomas corrige a tese de Aristóteles em que a filosofia primeira não tem como sujeito a metafísica. O que é totalmente novo na maneira do qual Santo Toma afirma cientificamente a metafísica é que, por um lado, ele considera o conhecimento da existência das coisas imateriais como constituinte da condição para entrar na metafísica, sendo que por outro lado, ele sustenta resolutamente que o sujeito da metafísica não se limita ao ser imaterial mas engloba também as coisas materiais (coisas criadas);
• Tem-se a insistência do termo sujeito: graças a este termo, Santo Tomas indica que a metafísica considera o real como nós o encontramos e tal como ele o é em si mesmo. Santo Tomas não se contenta em corrigir Platão e Aristóteles. Eles consideraram o ser sobre um aspecto particular (um ser material). Estes filósofos descobriram a existência de princípios imutáveis e necessários, mas eles não experimentaram a dependência de todas as coisas em Deus;
• SCG I 26, 1 “Aquel argumento prueba que Dios es bienaventurado esencialmente; pero no que la bienaventuranza le corresponde por su esencia, sino más bien por razón del entendimiento”
• Santo Tomas utiliza a metafísica para demonstrar um ser esta em conformidade consigo mesmo tanto quanto ser humano ou ser psíquico). Santo Tomas promove uma ruptura com a tradição dando novos conteúdos para o sentido da metafísica. A metafísica de Santo Tomas torna o real compreensível na sua natureza mais profunda e na sua fonte última;
• Santo Tomas elaborou sua metafísica num clima cristão. Para explicar suas posições fundamentais procurou atribuir a sua metafísica ao processo da Revelação do Senhor. Não obstante fala-se de uma metafísica desenvolvida no contexto da doutrina da fé cristã;
• A metafísica é o estudo das causas ultimas do real. O valor supremo da metafísica reside justamente no fato de que ela procura o ultimo e a mais profunda verdade naquilo que é real. Ela nos dá o alimento do qual nós temos necessidade. Ela pode nos aproximar o mais possível de nossa “morada real”. E nos preparar a um conhecimento novo e superior do “SER PRIMEIRO”;
• A metafísica nos da o conhecimento mais profundo que seja acessível ao homem, da natureza de tudo o que existe. Ela nos faz capazes de conhecer o fim ultimo e o fim de todos os seres e suas atividades;
• Todos os homens procuram a perfeição e a felicidade. Ora, a verdade é a perfeição de nossa intelectualidade. Se a metafísica nos conduz a esta verdade a falta dela é uma ameaça para a vida do homem. Como todo o homem procura o conhecimento e a verdade, é por natureza, orientada pela metafísica, isto é, o homem é um animal metafísico.





TORREL, J. P., Santo Tomás de Aquino. Mestre Espiritual. São Paulo: Loyola, 2008.

ELDERS, L. J. La Métaphysique de Saint Thomas d’Aquin. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1994.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Doze místicos cristãos - Parte III

São Tomás de Aquino

Para São Tomás de Aquino toda a humanidade espera em Deus, o fim ultimo da humanidade é Deus. Deus torna-se o fim absoluto de todo o homem. A sociedade se desenvolve e os conventos se estabelecem nas cidades. Desta forma os monges podem se aproximar cada vez mais das pessoas e consequentemente da civilização. Dentro deste contesto os monges adotam o carisma da fraternidade. A ajuda aos outros é o reflexo do amor de Deus que se manifesta na história da humanidade. A contemplação, por sua vez, impulsiona a fraternidade. É somente pela contemplação que a humanidade pode se aproximar das vontades de Deus e ser solidários na ajuda ao próximo. O homem para São Tomas de Aquino tende a teologia da sabedoria, isto é, o sábio de Deus. Ser sábio é buscar pela verdade e, a verdade nada mais é do que Deus revelado na pessoa de Cristo. Conhecer a verdade é conhecer a Cristo e testemunhar a ação divina na comunidade. Este testemunhar conduz ação de conhecer a Deus pela palavra de Deus. A escritura é o alicerce da fé cristã. A proclamação da palavra é o testemunho de fé do cristão que revela este Deus amoroso. Mas o que responde este amor do homem para com Deus? A inteligência e a vontade humana ou a fé e o amor? Evidentemente que o homem com a sua inteligência busca o amor de Deus. Tem-se o consentimento às vontades de Deus À fé e o amor de Deus. Mas, para que se tenha o consentimento, o homem terá de ter uma vida contemplativa, de oração para que cada vez mais possa se aproximar de Deus e do próximo.



Santo Inácio de Loiola

Segundo Rahner, a intenção de Inácio pela Companhia fundada era de “ajudar as almas”. A mística de Sto. Inácio se encontra relatada nas obras: peregrino e exercícios espirituais. O ser humano tem um caminho para aproximar-se de Deus. O fundamento deste caminho é Deus. Deus é o principio e fundamento do ser humano. As respostas do homem e suas necessidades têm como alicerce o próprio Cristo. A mística de Santo Inácio tem seu inicio pela vida dos santos, assim, começa sua vida religiosa. De princípio tem a idéia de ser cartuxo, percebe que para a vida requer mudanças, aponta a necessidade de conversão, o desprendimento de bens, uma peregrinação ao Senhor, devoção a Maria e penitência. O ápice da mística de Inácio é a paz interior, grises na vida e os dons recebidos. Este processo é uma purificação ao Senhor. A mística de Santo Inácio conduz a pessoa a ver a transfiguração do mundo, o despertar de um sonho, fazendo a experiência de Deus. A experiência de Deus é o conhecimento interior que adere às vontades de Deus. Experiências de Deus são cinco: Santíssima Trindade, criação do mundo (natureza), eucaristia, humanidade de Jesus, entendimento pela fé e pelas coisas (ilustração, iluminado, luz que permite ver, a fé permite ver a obra da criação). Assim, as experiências conduzem a Deus pela contemplação.


Santa Teresa

Mística de grande repercussão e aprofundamento na contemplação no Senhor. Afirma as três mercês com o fundamento de sua mística: união, graça e testemunho. Por ocasião da morte da mãe Santa Teresa passa a mora num convento de agostinianas. Tem-se então sua conversão e uma experiência de Deus. A experiência de Deus se realiza na natureza. O homem esta apto a conceber este Deus que se encontra na natureza. Santa Teresa aponta uma vida de contemplação, tendo como lema: “faça-se sua vontade”. Evidentemente que para uma vida de contemplação existem algumas determinações: tais determinações iniciam a vida de oração. Oração trata de amizade com aqueles que sabemos quem nos ama. A essência da oração é por em ação o amor de Deus. Este amor de Deus é revelado pela pessoa de Cristo encarnado. O mistério de Deus é comunicado em Cristo. Desta forma, a pessoa pode graus da oração: água tirada com esforço (dificuldades), do poço quietude (empenho), fonte de um rio inunda (graça superabundante de Deus), chover união (Deus de comunhão). A água é retratada na pessoa de Jesus. Assim, a intenção da oração é uma resposta ao amor de Deus.


VELASCO, Juan Martin. Doze Místicos Cristãos. Petrópolis: Vozes, 2003, pp. 87-132.